sábado, 23 de outubro de 2010

Erradicação da miséria no Brasil


O gráfico acima é da Fundação Getúlio Vargas (original aqui).
Vejam que a partir do Plano Real, há uma queda da miséria no Brasil, mas que este processo é interrompido de 1995 a 2003. Ou seja durante todo o governo FHC, inclusive no ano de 2003 cujo orçamento foi elaborado no governo FHC, não houve redução da miséria.
Ao clicar no ano 1995, aparece uma manchete de jornal: "Renda dos pobres cresce 30% no Real."
O click em 1999, exibe: "IPEA mostra que miséria volta a crescer no Brasil"
Em 2003: "Miséria cresceu no primeiro ano de Lula" (volto a lembrar com orçamento elaborado no governo FHC).
De 2004 em diante, todas as manchetes ressaltam a acentuada queda da miséria no Brasil.

Muitos têm argumentado que o sucesso do governo Lula se deve às condições criadas nos governos anteriores. O ponto que permanece sem explicação é porque não continuou a redução dos níveis de miséria durante o governo FHC, se as condições do Plano Real, no governo Itamar, já haviam levado ao início da redução. Para mim, trata-se de falta de prioridade para políticas sociais, do mesmo modo que faltou prioridade para o investimento em C&T (aqui).

Reproduzo abaixo o comentário de Paulo Beirão, no post anterior, pois se aplica também ao tema atual :
"Acho curioso o argumento que todo o sucesso do governo Lula se deve à estabilidade econômica do plano Real. Vamos aos fatos! 
O plano Real foi iniciado no ano de 1994 (a moeda começou oficialmente no dia 1o de julho), no governo Itamar. Depois disso o FHC teve 8 (oito!) anos para mostrar que a estabilidade econômica poderia ser seguida de crescimento econômico e redução das desigualdades sociais. Pelo contrário, só aconteceu crescimento da dívida externa, da divida interna e da carga tributária, apesar do arrocho econômico e da privatização de várias estatais (a propósito, para onde foi o dinheiro dessas privatizações?). 
Há alguns que dizem que o cenário econômico era desfavorável. Nesse período tivemos 3 crises financeiras, uma da Coréia, outra da Argentina e outra do México. Em todas elas o Brasil quebrou e tivemos que ficar de quatro para o FMI (vocês se lembram dos chamados efeito Orloff e efeito tequila?). No final do governo FHC o dólar tinha disparado e estávamos na iminência de ter que recorrer novamente ao FMI (vocês se lembram do empréstimo standby de US$ 30 bi?). 
Pouco depois do início do governo Lula começamos a pagar as dívidas, o dólar caiu e os juros internos caíram, contrariando a tendência do final do governo FHC. A conjuntura externa foi favorável? Em 2008 iniciou-se a maior crise financeira internacional depois da Grande Depressão de 1929, que afetou países (seriam periféricos?) como os EUA e a Europa. Contrariamente ao preconizado pelos “especialistas” tucanos, o governo Lula apostou no mercado interno e fomos os últimos a entrar e os primeiros a sair da crise (é importante lembrar que vários países ainda não saíram da crise!). É isso que os tucanos chamam de “conjuntura internacional favorável”?"

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Está em dúvida no voto? Veja os dados sobre investimento em ciência!

Vários estudos e indicadores nacionais e internacionais mostram que o número de doutores se correlaciona com melhor desenvolvimento social e econômico. Também é demonstrado, e óbvio, que para haver doutores produtivos é necessário investir em ciência.
Se você não é da área de ciência e tecnologia, veja os dados abaixo e reflita sobre qual o partido que valoriza a ciência no Brasil.
Se você é da área de ciência e tecnologia, nem precisa analisar muitos dados. Você deve ter sentido que há muito mais investimento hoje que no governo anterior. Mas como você está acostumado a tomar decisões baseado em evidências científicas, veja os dados:

A diferença de inclinação das retas é muito esclarecedora. Ao lado de cada gráfico há uma figura mostrando apenas as retas de tendência. Em preto a do PSDB (no trecho pontilhado a extrapolação do crescimento na mesma tendência mostrada nos oito anos de governo FHC). A linha vermelha mostra a tendência de crescimento no governo Lula.

No total das bolsas, o quadro é ainda mais dramático, pois a curva do número de bolsas era decrescente:

A queda do número de bolsas afetou bolsas de extrema importância para a capacitação nacional como as bolsas para pós-graduação:

O quadro se completa com pouco apoio para realização de projetos de pesquisa:

Não precisa ajudar na análise da interpretação pois as tendências são claras. Em todos estas modalidades houve um suporte à ciência e tecnologia muito mais decisivo no governo do PT. 

sábado, 9 de outubro de 2010

Paixonei com Ouro Preto, tudo em até 15 minutandano


A Reunião Anual de Pesquisa em Malária foi a oportunidade que me trouxe de volta a Ouro Preto. Pelo que lembro a terceira vez. A primeira, ainda estudante de medicina, foi uma visita rápida. Uns amigos de Belo Horizonte fizeram a gentileza de trazer-me, circulamos pela cidade e retornamos no mesmo dia. A verdade é que lembro do padrão geral da arquitetura, da beleza das igrejas e pouco mais que isto. A segunda vez foi numa visita ao curso de pós-graduação da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), em comissão da CAPES. Também foi uma visita rápida e sem oportunidade de turistear.
Desta vez, fiquei de 2a-f a 6a-f. Como se trata de uma reunião científica, fiquei a maior parte do tempo no Centro de Convenções. Continuo conhecendo pouco de Ouro Preto. Evitei o transporte oferecido pelo congresso para caminhar do hotel ao Centro de Convenções, aproveitando a temperatura amena e sem chuva. Pouca coisa, mas paixonei com Ouro Preto. O trecho anterior em itálico, como se usa para língua estrangeira, está escrito em mineirês. Notem que é parecido com o português brasileiro (apaxonei-me por). Nesta viagem aprendi uma unidade de medida mineira: minutandano. Qual a distância daqui do hotel até o Centro de Convenções?  Dez minutandano. A vantagem da medida é que ela reflete vários aspectos do trajeto incluindo a sua inclinação. Assim, como o hotel se situa em local mais elevado que o Centro de Convenções, o retorno não fica a 10 mas a 15 minutandano. Interessante o nome do Centro de Convenções (da UFOP): Parque Metalúrgico pois é adaptado de uma metalúrgica. 
O Hotel Solar do Rosário, onde fiquei, é muito bom, mas algo caro. Imagino que há alternativas razoáveis mais baratas. Tivemos uma reunião no Hotel do Teatro o qual pareceu muito simpático (e a internet inalámbrica estava muito mais rápida que no Solar). Ao lado, e dos mesmos proprietários, há o Café e Restaurante Deguste. Almoçamos um buffet de comida mineira que estava muito boa.
Numa das noites, todos da reunião acabaram indo para uma pizzaria (O Passo; Rua São José, 56). Meia Ouro Preto havia pensado o mesmo, pois 3a-f à noite há rodízio de pizza. Quase impossível entrar. Consegui entrar, já uma boa parte acabou por desistir. A pizza, pelo menos a do rodízio, é possível de comer, sin pena ni gloria.
O restaurante Acaso 85 (Largo do Rosário 85) funciona numa casa antiga com paredes de pedra e a sala de refeições fica abaixo do nível da rua, em dois lances enormes de escadaria. Acabei indo duas vezes pela proximidade do hotel, não exatamente pela comida. Embora a comida seja boa o custo é muito elevado para a sua qualidade e os vinhos têm um custo também elevado. 
O melhor restaurante que estive por lá foi, seguramente, o “Bené da Flauta” (R. São Francisco de Assis, 32 - Centro). 
Ouro Preto não é exatamente uma cidade barata, mas vale muito a pena a visita. O conjunto arquitetônico está muito bem preservado. Também acho fantástico que a cidade preserve todo o aspecto colonial embora mantenha uma vida normal de cidade.
A foto acima do texto tirei do hotel com a visão da torre da Igreja do Rosário, a no corpo do texto tirei numa caminhada, ao passar na porta do grande Hotel de Ouro Preto, e não sei o nome da igreja.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O que um governo Serra faria com o pré-sal?



Reproduzo abaixo a matéria de Carta Maior de ontem sobre o Pre-Sal e a Petrobrás, que contem uma entrevista com o pai de Camila (Adilson Oliveira).
"O professor Adilson de Oliveira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), prefere responder o que o Brasil perderia se o Estado brasileiro abdicasse de controlar o ritmo e a estratégia de exploração dessa riqueza. O risco existe e foi sinalizado recentemente pelo coordenador do programa de energia de José Serra: Zylberstajn quer afastar a participação estatal no comércio do petróleo brasileiro. “Não se trata apenas de uma posição ideológica; há interesses em jogo que gostariam de diminuir o peso da Petrobras; se possível, até quebrar a empresa”, analisa.
Se o Brasil hoje é visto como o filé mignon do mundo em termos de crescimento econômico, o filé mignon do Brasil é o pré-sal. Por seu valor específico como principal reserva de petróleo descoberta no planeta no crepúsculo da oferta mundial, mas, sobretudo, pelos efeitos multiplicadores no conjunto da indústria nacional, trata-se “da maior oportunidade que o país já teve em toda a sua história de promover um salto qualitativo nas condições de vida do seu povo”. 

A avaliação é do economista Adilson de Oliveira, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Especialista em economia do desenvolvimento, com doutorado em Grenoble e pós-doutorado em Sussex, Oliveira tem posições serenas que vivem em harmonia com o tom pausado de sua fala. Sem nunca alterar a voz ele é taxativo, porém, num aspecto. O encadeamento virtuoso possibilitado pela riqueza do pré-sal requer um lacre de segurança que garanta a permanência desses recursos no metabolismo da economia brasileira.

O nome dessa blindagem, diz o professor da UFRJ, é Petrobras. 

A firmeza calma de suas palavras não esconde um confronto agudo com a histórica oposição de certos interesses ao papel da empresa no país. Esse antagonismo foi reiterado mais uma vez nestas eleições pelo assessor do programa de energia de José Serra, David Zylberstajn, ex-dirigente da Agencia Nacional de Petróleo no governo FHC. Em recente entrevista ao Valor [06-10], Zylberstajn admitiu que aconselharia Serra, caso eleito, a reverter o modelo do pré-sal aprovado pelo Congresso, que dá o comando do processo de exploração das reservas à Petrobras e a prerrogativa de comercialização do óleo à nova estatal criada para esse fim, a Pré-Sal Petróleo SA. 

Coerente com o que fez em 1999 como diretor-geral da ANP, quando se propôs a encolher a Petrobras, que de fato perdeu o monopólio na exploração e teve seu braço petroquímico amputado, Zylberstajn sintetiza assim a filosofia da estratégia sedimentada junto ao presidenciável José Serra: livrar o mercado brasileiro de qualquer interferência estatal na compra e venda de petróleo.

“Não se trata apenas de uma posição ideológica; há interesses em jogo que gostariam de diminuir o peso da Petrobras; se possível, até quebrar a empresa”, analisa o professor da UFRJ, cuja calma adiciona peso e gravidade à sua avaliação. 

O gigantismo dos conflitos que cercam o pré-sal emprestam dose adicional de credibilidade a esse risco. “São reservas que concentram cerca de 70 bilhões de barris, no mínimo; podem chegar a 100 bilhões”, diz o economista sobre a fabulosa poupança guardada no mar a cerca de seis mil metros de profundidade, 300 quilômetros distante da costa brasileira. 

O pré-sal mudou o tamanho do Brasil na geopolítica mundial. Os grandes interesses que disputam a oferta de energia sabem que o país será um dos cinco ou seis maiores fornecedores do planeta no século XXI, quando a escassez de óleo elevará os preços do barril continuamente. Isso muda tudo. Muda inclusive o apetite da luta pelo poder na economia, ainda que o assunto pré-sal tenha ocupado até agora um conveniente segundo plano no discurso oposicionista, exceto por confidencias como a de Zylberstajn . 

“O fato é, que, de importadores de óleo até recentemente – a autossuficiência veio em abril de 2006 - passaremos a grande exportador de derivados de maior valor agregado”, diz o economista da UFRJ que tem domínio absoluto sobre os encadeamentos de uma equação em que mercado-energia e decisão política são indissociáveis. “Esse é o pulo do gato da capitalização”, observa chamando a atenção para a mais recente peça movida no jogo de xadrez da construção da soberania brasileira sobre essa trilionária poupança.

O maior processo de capitalização da economia mundial adicionou cerca de US$ 120 bilhões ao caixa da Petrobrás que terá assim recursos para industrializar o óleo do pré-sal, o que inclui, entre outros requisitos, forte expansão da rede brasileira de refinarias, estagnada desde 1980. Cinco plantas estão sendo construídas simultaneamente neste momento, a maior delas em sociedade com a PDVSA venezuelana, em Pernambuco. 

Investimentos maciços estão sendo feitos também na modernização de outras quatro unidades antigas.

É essa estrutura industrial que viabilizará a exportação de valor agregado (gasolina diesel etc) em vez de óleo cru, mais barato. É ela também que funcionará como antídoto à famosa ‘maldição do petróleo’, um processo corrosivo de desindustrialização e dependência que atinge sociedades reduzidas a mero entreposto de exportação de recursos primários finitos.

O professor cautelosamente manifesta dúvidas quanto à necessidade da Pré-Sal, a nova estatal criada para coordenar a etapa final da comercialização do óleo e derivados. No seu entender, a Petrobrás poderia cumprir essa missão. A empresa,argumenta, é quem melhor conhece o mercado ardiloso das disputas geopolíticas e as armadilhas das cotações. 

A necessidade de um ‘dosador’ estatal para calibrar o volume das vendas, de qualquer forma, parece incontestável. E ele explica o porquê. “O que faz do pré-sal um tesouro para o desenvolvimento brasileiro não é apenas o volume de petróleo que ele encerra. O mais importante é o viés industrializante que essa exploração permite. Toda uma cadeia de equipamentos, máquinas, logística, tecnologia e serviços diretamente ligados e também externos ao ciclo do petróleo poderá ser alavancada nos próximos anos, transformando o Brasil, também, num grande exportador industrial. 

O economista sempre contido entusiasma-se: “Isso tem força para deslocar o patamar do nosso desenvolvimento”. Para que essa oportunidade não se perca é vital a definição de um “dosador” soberano que coordene duas variáveis básicas: o ritmo da extração e do refino e a sua sintonia com a capacidade brasileira de atender à demanda por plataformas, máquinas, barcos, sondas e centenas de outros equipamentos requeridos no processo. “Se a exploração do petróleo correr à frente do fôlego da indústria local, todo esse impulso será transferido para o exterior na forma de importações de bens e equipamentos”, adverte agora com certo grau de ansiedade na fala. 

Essa pontuação confirma que não estamos falando de estatísticas frias, desprovidas de desdobramentos sociais. Cerca de 300 mil jovens serão treinados nos próximos anos pelo Promimp, o Programa de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás Natural (Prominp) , idealizado para qualificar mão-de-obra para a indústria nacional de petróleo e gás. Se o comando sobre a extração e a comercialização, de que fala o professor, escapar do controle nacional, esses empregos e milhares de outros vazarão para o exterior. “Parte dos interesses do mundo petrolífero sabe e já aceitou que a Petrobras é quem tem condições técnicas e institucionais de coordenar esse novo ciclo brasileiro”, explica o acadêmico que todavia adverte: ”A decisão política de capitalizar a Petrobrás emitiu um sinal claro; uma parcela dos capitais interessados em participar do entendeu que o caminho era investir em ações da empresa.Esse foi um divisor importantíssimo. Porém, observa pedindo atenção com uma pausa: “há gigantes que ainda gostariam de ocupar o papel coordenador assumido pelo Estado brasileiro. 

Em tese, o mercado até poderia substituir essa função”, comenta laconicamente Adilson de Oliveira, para emendar em seguida: “Com um custo para a sociedade brasileira: ela perderia, como já disse, o mais importante impulso de desenvolvimento já registrado em toda a sua história”. Orientadas apenas pelo lucro imediato, petroleiras multinacionais sangrariam das reservas o máximo de óleo no mais curto espaço de tempo. Não haveria encadeamentos industrializantes; tampouco recursos para um Fundo Social destinado a investir em educação, tecnologia e erradicação da pobreza, como quer o governo atual. 

É nessa brecha de tensão entre a voz do professor, a regulação soberana já aprovada pelo Congresso Nacional e as incertezas embutidas no caso de uma hipotética vitória do candidato oposicionista, em dia 31 de outubro, que prosperam sinais e ameaças, como as balizas sugeridas pelo coordenador do programa de energia de José Serra, David Zylberstajn. 

O professor da UFRJ não pronunciou o nome de Zylberstajn uma única vez em toda a conversa. Nem seria preciso: as iniciais DZ, da consultoria de Zylberstajn, estão visceralmente entranhadas naquilo que o economista de voz mansa classifica como interesses que gostariam de enfraquecer, “se possível, até quebrar a Petrobras”, para assumir o controle das maiores reservas de petróleo descobertas no planeta nas últimas três décadas."